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Móveis na Rota

18 de janeiro de 2013

Do clássico ao rústico, os móveis na Rota Romântica agradam todos os gostos.

Fotos: Internet

Os municípios do Vale do Sinos e da Região das Hortênsias, onde se situa a Rota Romântica, sediam em torno de 20% das fábricas de móveis do Estado, de acordo com a Associação das Indústrias de Móveis do Rio Grande do Sul (Movergs). Tradição que impulsionou o desenvolvimento das cidades, principalmente com a chegada dos imigrantes alemães. A Revista Verdeperto Rota Romântica fez um raio X dos móveis produzidos na região, desde o começo da industrialização do setor até o que é tendência nos dias de hoje. Se ajeite na poltrona e descubra porque a Rota Romântica é referência em fabricação de móveis.

 

Móveis para sempre

No início do século 20, foram criadas as primeiras indústrias moveleiras na região de Novo Hamburgo, época em que o setor calçadista começava a prosperar. Antes de 1900, os móveis eram produzidos apenas em escala artesanal. Em 1904, a família Kirsch fundou uma das fábricas pioneiras na região. Os móveis eram feitos em madeira maciça e se caracterizavam pela riqueza dos detalhes e pela qualidade. Exemplares da extinta empresa ainda decoram a casa da aposentada Célia Moraes, em Novo Hamburgo. A envergadura dos móveis, fabricados em 1969, é o que mais chama atenção. Feito manualmente, este tipo de artesania praticamente não existe mais. 

Mais de 40 anos antes, uma edição da Revista Tribuna Ilustrada, comemorativa à emancipação de Novo Hamburgo, já destacava a importância dos Móveis Kirsch para o novo Município. “Esta importante fábrica de móveis entrou imediatamente a prosperar a conquistar nome graças ao escrúpulo e ao bom gosto de seus proprietários. Esse grande estabelecimento industrial é hoje um dos que honram o Estado”. A mesma Revista destacava, ainda, a qualidade de outra empresa: os Móveis Schneider, fundado em 1916. “A arte, o gosto e a perfeição no acabamento e a superioridade da matéria-prima” atraíam consumidores de outros centros. “Para se avaliar o prestígio que goza essa fábrica, basta dizer que são inúmeras famílias de Porto Alegre que se dirigem a Novo Hamburgo, especialmente para mandar fazer por essa fábrica os seus móveis”, destaca a reportagem. 

Qualidade e durabilidade caracterizavam os primeiros móveis produzidos na região.  Um capricho que veio com a colonização alemã, explica a arquiteta Silvana Londero. Os dormitórios de casal eram feitos com camas de solteiro unidas, para que na velhice, as camas pudessem ser separadas. “O móvel precisava, necessariamente, durar a vida inteira”.

 

Projetos antigos eram feitos em aquarela

O curador da Fundação Scheffel, Ângelo Reinheimer, guarda uma relíquia do início do século passado. Projetos dos Móveis Kirsch feitos com lápis e aquarela. Em todas as perspectivas, os desenhos impressionam pela riqueza dos detalhes, chegando a projetar o mobiliário inteiro de cada peça. Desenhadas por um alemão que trabalhava na empresa, estas relíquias foram compradas de um comerciante de antiguidades.

 

Novas tecnologias revolucionam indústria moveleira

Com o passar dos anos, a indústria moveleira foi incorporando novos materiais. A madeira começou a ser substituída por laminados, que imitam a textura de madeira nobre. Vidro, acrílico e metal também são usados na criação de novos modelos. O trabalho do marceneiro, que antes demandava muito tempo, passa a ser bem mais prático e rápido.

O surgimento de novas tecnologias, como as corrediças nas gavetas, aperfeiçoou os produtos.  “Antes, para deslizar melhor, as gavetas eram apoiadas no alumínio ou em um pedaço de fórmica. Hoje em dia, há corrediças telescópicas que suportam até 50 quilos”, afirma Silvana. Os puxadores em aço inox, alumínio, latão e zamaque, que é uma liga de metal, também causaram uma revolução na produção de móveis.

 

Móveis planejados para pequenos espaços 

Por volta da década de 70, os móveis sob medida começaram a ganhar popularidade. É que com o advento dos apartamentos, o tamanho das casas diminuiu, tornando necessário planejar, para garantir um máximo aproveitamento dos espaços.

Hoje, diversas empresas da Rota Romântica trabalham com este perfil de produção. A Weiand é uma delas. Os projetos são encaminhados por arquitetos e executados pela fábrica. O proprietário Alberto Weiand diz que todo e qualquer tipo de móvel e acabamento pode ser executado. “Nosso trabalho nunca se repete. Toda hora aprendemos uma coisa nova. Fazemos de tudo, desde o rústico até o acabamento mais refinado”, afirma. 

O custo depende do tipo de material que será utilizado. Hoje, o mercado oferece inúmeras possibilidades. Existem até pastilhas de chifre e de osso que são utilizadas como elementos decorativos e que agregam valor à peça.

A matéria-prima mais utilizada hoje é o MDF. Esse material representa 85% de um móvel, de acordo com Eduardo Weiand, irmão de Alberto. Madeira maciça, como louro freijó, caxeta e tamari, só é utilizada em detalhes, como os pés dos móveis. 

A maioria das indústrias moveleiras da região é familiar. Geralmente, o trabalho em marcenaria é passado de pai para filho. Alberto Weiand, por exemplo, dirige a empresa junto com outros irmãos. Aprendeu o ofício com o pai. “Eu ajudava na parte de pintura e de laminação. Também cerrava algumas peças. Com isso, fui aprendendo. Foi bem de pai para filho”, confirma.

 

MDF é a matéria-prima do momento

Derivado da madeira, o MDF é conhecido internacionalmente por suas siglas em inglês: Medium-Density Fiberboard.  Em português, significa placa de “fibra de madeira de média densidade”, resultado da aglutinação de fibras de madeira com resinas sintéticas e outros aditivos. As placas são coladas umas às outras e fixadas por meio de pressão. O MDF foi fabricado pela primeira vez no início dos anos 60, nos Estados Unidos. No Brasil, só foi incorporado pela indústria moveleira em 1994.

Outro produto utilizado atualmente é o MDP (Medium Density Particleboard) ou “painel de partículas de média densidade”. Esse material é produzido a partir da transformação de toras de madeira em partículas, que são aglutinadas e entrelaçadas com resinas especiais de última geração. Ele garante maior estabilidade dimensional do painel e grande resistência à flexão, com a vantagem de ter um aproveitamento maior, com custo menor.

 

Móveis que esfriam o ambiente

Quando pensamos em móveis típicos da Rota Romântica, nos vêm à cabeça peças tradicionais feitas em madeira de lei. Porém, a indústria moveleira possui outros tipos de matéria-prima para o desenvolvimento de cadeiras e mesas, por exemplo. Os Móveis Kehl, de Novo Hamburgo, trabalham exclusivamente com metal: aço inox ou alumínio, cromados ou pintados e revestidos em cores de couro prensado, pele bovina, laminado sintético ou estofado. Ao todo, são mais de 250 modelos. Segundo o gerente comercial Adair Fábio Kerber, uma curiosidade deste tipo de material é a sensação de que ele “esfria o ambiente”, razão pela qual é bastante procurado em regiões mais quentes. “Móveis em metal combinam com os ambientes em madeira. O cliente gosta de fazer essa mescla”, afirma Kerber

 

Tendência é misturar móveis clássicos e contemporâneos

Uma das poucas fábricas que ainda produzem móveis clássicos no Vale do Sinos é a Reinheimer, em São Leopoldo. Cristaleiras, cômodas, mesas, poltronas e armários expostos na loja da fábrica exibem detalhes esculpidos artesanalmente. Detalhes que garantem o charme dos móveis antigos. Os modelos são produzidos com madeira maciça e lâminas de madeira natural, em sua maioria. A arquiteta Branca Reinheimer diz que é bem mais complicado fazer móvel em estilo do que móveis modulados. “O móvel clássico exige arte”, compara.

A fábrica também produz uma linha contemporânea, marcada por móveis retos e lisos. É justamente a combinação desses dois estilos que está em voga na decoração de interiores. “A tendência está bem eclética. Os detalhes em estilo enriquecem a decoração”, informa Branca. 

Diretamente do Salão Internacional do Móvel de Milão, na Itália, principal evento do setor no planeta, os laqueados e com brilho aparecem como tendências dos últimos anos. Uso de plástico, materiais reciclados e muito material alternativo, como borracha sintética, também estão aparecendo, de acordo com a arquiteta Silvana Londero. Na contramão, o vidro perde espaço. “Sempre tem releitura de décadas passadas. Os anos 70, por exemplo, estão de volta, trazendo cores e acrílico”, garante. 

 

Toque artesanal

Tradição e qualidade. Essas são as marcas dos móveis de Gramado. O mobiliário da região ganhou fama por características que os diferenciam e identificam. Famosos pela robustez, os móveis são feitos de madeira maciça, com aspecto de móvel de fazenda, uma linha artesanal, mais country. Já a madeira tinha um aspecto bem escuro e acabamentos com linhas mais retas. Esse estilo perdurou por décadas.

Por volta dos anos 1980, a indústria moveleira de Gramado resolveu misturar o tradicional com o moderno, para não perder espaço no mercado.  Com isso, os móveis ganharam um novo conceito, mas mantiveram a mão de obra artesanal no acabamento que o consagrou. 

A Fábrica Masotti é uma das principais da região das Hortênsias. Atuando há 50 anos no mercado, já trabalhou com várias linhas de móveis, desde os modelos que caracterizaram os móveis de Gramado até o que é tendência na atualidade. Mesmo com o a introdução de novas tecnologias e materiais, a fábrica segue produzindo de maneira artesanal, peça por peça. O móvel de Gramado que antes era bastante escuro, agora também têm cores e brilho, garantidos pela aplicação de laca. 

Pensando no consumidor mais saudosista, a Masotti abriu uma loja exclusiva, com linhas clássicas, que fizeram sucesso no passado. Nesse espaço, o cliente pode reviver, inclusive, os modelos que garantiram o status ao móvel produzido em Gramado. A gerente da Loja Masotti, Flávia Brescia, constata que tanto os modelos clássicos como os contemporâneos tem boa aceitação. “Depende do gosto de cada cliente”, afirma.

 

Grandes e confortáveis

Os estofados La Form, de Picada Café, são vendidos em grande parte do Brasil. A fábrica produz uma linha contemporânea de sofás, cadeira, poltronas e puffs. É uma combinação infinita de modelos, cores e estampas, planejados para o conforto dos consumidores. A indústria chega a produzir 800 conjuntos de estofados por mês. Tudo é feito em série, na própria fábrica, por uma equipe de 40 trabalhadores. Primeiro, eles montam a estrutura do móvel em madeira. Depois, é a vez da percinta (uma espécie de amarra que dá firmeza ao móvel), do estofamento e da costura. O diretor comercial da La Form, Luiz Fernando Alles, informa que todo o processo de fabricação é manual. “Não existe máquina para fazer estofados. Todo o trabalho é artesanal.”

Hoje, o modelo de estofado mais vendido tem o desenho reto e estampa lisa. Segundo Alles, a tendência de mercado são peças grandes, com estilos diferentes. A estampa floral, que permanece nas cadeiras, perdeu espaço nos sofás. Outra curiosidade é que todos os estofados saem de fábrica com articulações no acento e no encosto, o que atende uma das principais exigências do consumidor: o conforto.  

 

O velho virou chique

Produtos sustentáveis, cada vez mais, ganham espaço no mercado moveleiro. Peças fabricadas com madeira de demolição se tornaram uma tendência do segmento nos últimos anos. Algumas características são marcantes nesse tipo de móvel, como marcas de prego, trincas, sobras de tintas e a variedade de tons da madeira reaproveitada.

A Eco Arte, de Morro Reuter, é uma das empresas que fabricam este estilo na Rota Romântica. Mesas, cadeiras, estantes, cristaleiras, aparadores e racks são alguns de seus produtos.  De acordo com o marceneiro Tiago Linck, a madeira mais abundante na região é a araucária, geralmente retirada de casas demolidas em chácaras. Canjerana, louro freijó, canela e açoita-cavalo também são utilizadas na confecção dos móveis. 

Com apenas 22 anos, Tiago já trabalha na área há quatro anos. Para ele, o mais difícil é fazer móvel pesado. “O resto é só alegria”, brinca. A madeira de demolição que chega à marcenaria precisa ser escovada e tratada. Depois, ela ganha um banho de selador, base líquida que protege a madeira, e pronto: o velho virou chique.

 

Vida dedicada ao ofício de marceneiro

O marceneiro Vilson Gomes trabalha há 46 anos nos Móveis Reinheimer. Na opinião dele, a receita para fazer um produto de qualidade é ter paciência e capricho. Atualmente, Vilson é responsável pela montagem dos móveis na fábrica e na casa dos clientes. Porém, o marceneiro já passou por toda a linha de produção. Trabalhou com madeiras nobres, compensados e, agora, com MDF.  Segundo o marceneiro, a maior parte das indústrias moveleiras da região trabalha com móveis retos, o que faz a mão de obra para os clássicos estar em extinção.

 


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