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Pequenos pesquisadores

18 de janeiro de 2013

Em Fazenda Padre Eterno, as crianças são estimuladas a investigar a história do lugar em que vivem.

Fotos: Internet

Quanto menos alguém souber sobre o passado e o presente, mais inseguro será seu juízo sobre o futuro. Formulada por Sigmund Freud, famoso psicanalista suíço, esta ideia mostra a importância de cada povo compreender a sua história para decidir o seu futuro.

Em Fazenda Padre Eterno, no Município de Morro Reuter, as crianças são estimuladas a buscar informações que ajudem a compreender sua identidade cultural. Encravada em um pequeno vale na encosta da Serra Gaúcha, é a única comunidade da região formada por colonizadores portugueses, antes da chegada dos primeiros imigrantes alemães, em meados do século 19.

Este passado lusitano foi o embrião de um projeto de resgate histórico, desenvolvido na Escola Pastor Frederico Schasse. Apenas 15 crianças, entre 4 e 11 anos de idade, estudam nas quatro turmas, que convivem na mesma sala de aula. Como em outras localidades da Rota Romântica, desde muito pequenas, todas falam hunsrückisch, o dialeto alemão falado pela maioria dos imigrantes. Segundo a diretora Keina Werle, isso não prejudica o entendimento das crianças do idioma oficial, o português, “pois as crianças se ajudam”.

Para compreender melhor o presente, desde 2010, os alunos participam de gincanas, que têm o propósito de resgatar as origens de Fazenda Padre Eterno. O trabalho de garimpar informações começou por curiosidade. “Nem a gente conhecia”, admite a diretora. Desde então, as crianças são estimuladas a investigar suas origens, conversando com pessoas mais velhas, visitando prédios antigos e os cemitérios da localidade. “É um jogo de quebra- cabeça. Os alunos trazem novos dados e nós vamos reconstruindo a história”, informa. 

Foi conversando com um vizinho de 90 anos de idade que Andressa Henrich, de 10, descobriu que o Salão de Festas funciona no prédio mais antigo de Fazenda Padre Eterno, construído em 1912. “As pessoas iam lá para dançar”, acrescenta com entusiasmo. Em conversa com o pai de um coleguinha, a menina também descobriu que os Muckers se encontravam em uma pedra, no alto do morro, na frente da Escola. “Hoje ainda têm armas da guerra lá”, relata a jovem pesquisadora, referindo-se ao conflito religioso, que ocorreu na região, no final do século 19.

Nas lápides do cemitério, as crianças localizaram o nome da família Lopes, que tem origem portuguesa e viveu na comunidade. Fonte de pesquisa para as crianças, a ex-diretora da escola, Flávia Fritzen, conta que os únicos descendentes lusitanos que ainda moram na região pertencem à família Dias. Na propriedade desta família, funcionava uma serraria, que está instalada ao lado do Arroio da Bica, na divisa entre Morro Reuter, Santa Maria do Herval, Sapiranga e Nova Hartz. A doutora em História, Dóris Rejane Fernandes, que é autora de um livro sobre o tema, explica que os Dias eram grandes proprietários, mas como as famílias de origem portuguesa viviam da venda de terra, tudo acabou nas mãos dos colonos alemães. “O que sobrou foi apenas o indicativo desta propriedade.”

Próximo à antiga propriedade dos Dias, uma igreja desativada remete a um passado distante. “É o único lugar que tem uma igreja luterana com sino”, diz a historiadora. No terreno contínuo, os túmulos do cemitério ainda recebem flores, demonstrando que algumas destas famílias continuam vivendo na região.

Um dos frutos do projeto foi o programa de rádio “Tecer, Criar e Viajar”, que foi ao ar na Escola Pastor Frederico Schasse. A finalidade era divulgar as informações coletadas pelas crianças. Tudo produzido e apresentado pelos próprios alunos. O cenário contou com iluminação de lampiões, aparelhos antigos de rádio e fotos cedidas pelos moradores. A ideia era voltar no tempo, quando não existia nem TV, nem computador e nem telefone celular.

 

Internet ainda não chegou em Fazenda Padre Eterno

Mesmo sem sinal de internet, as crianças não ficam alheias ao que se passa no mundo. As aulas de informática acontecem a 17 quilômetros de Fazenda, no centro de Morro Reuter. “Temos a preocupação de valorizar as origens e os valores, mas também mostrar o que existe lá fora”, afirma a diretora Keina. Porém, não há como negar, sem internet, o convívio entre as crianças se fortalece, despertando cooperação e solidariedade. Para doutora Dóris, que acompanha de perto o trabalho realizado na Escola, a busca das crianças pelas raízes do lugar onde vivem “é um trabalho fantástico”, pois envolve cidadania, identidade e valores. “As crianças sempre vão ter amor ao lugar em que vivem. Elas buscarão seu caminho no mundo, mas sempre saberão quem são. Terão orgulho das suas origens, pois irão se identificar e criar um vínculo com o lugar, o que é fundamental para o ser humano evoluir e encontrar a felicidade”, afirma.

 

Quem era Padre Eterno

Padre Eterno era um capelão chamado Ignácio Coelho dos Santos, que viveu antes de 1750, na região onde hoje é Sapiranga. Ficou conhecido por suas atividades religiosas, como a reza do terço, batismos e enterros.

 

A História de Fazenda Padre Eterno

A historiadora Dóris Rejane Fernandes é autora do livro “Sapiranga – 50 anos de Município, mais de 200 de História”, que conta a origem da região conhecida como Padre Eterno. Segundo ela, portugueses, lagunenses e paulistas circulavam na região, antes mesmo da colonização alemã. Um desses primeiros habitantes teria sido Manoel José de Leão, proprietário da Fazenda do Padre Eterno. Mais tarde, as terras foram vendidas para os colonos alemães.  

A localidade de Fazenda Padre Eterno, em Morro Reuter, teria sido rota para quem desejava escapar do conflito dos Muckers, que aconteceu na região de Sapiranga. “Há muitos relatos de colonos, que fugiram pelos rios e mato afora”, informa. Localizada atrás do Morro Ferrabraz, garantia um distanciamento do foco da guerra. 

Padre Eterno era o Quinto Distrito de São Leopoldo. Após a batalha, a região foi batizada como Vila de Sapiranga. “Foi uma forma de selar aquele estigma do Mucker, pois o ocorrido foi em Padre Eterno”, afirma. O antigo nome acabou sendo preservado apenas na localidade hoje pertencente a Morro Reuter. O primeiro habitante desta localidade teria sido Francisco, um descendente português, que tinha fama de curandeiro.  


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