Buscar Serviços


De portas abertas para o passado

18 de dezembro de 2012

Tradicionais armazéns das colônias alemãs seguem funcionando em Morro Reuter.

Fotos: Internet

A cidade de Morro Reuter, conserva uma importante página das atividades comerciais da região. Os históricos armazéns Kieling e Klauck preservam até hoje as características dos autênticos estabelecimentos comerciais de antigamente. Além de continuar vendendo uma ampla diversidade de produtos, ainda são pontos de encontro dos moradores.

A sensação de voltar ao passado começa na porta de entrada, onde cartazes divulgam os principais eventos da comunidade. Do lado de dentro, tudo é como nos tempos da fundação. Mobiliários, geladeiras, relógios e muitos outros artigos remetem o visitante ao passado. É quase uma década e meia de história. O armazém Kieling existe há aproximadamente 140 anos e o Klauck, há mais de 90 anos. 

Nas primeiras décadas da imigração alemã, o comércio na região era feito por três famílias: Kieling, Klauck e Weber. A chefe do Departamento de Turismo de Morro Reuter, Deisi Schneider, conta que “os comerciantes traziam os produtos da colônia em carroças puxadas por mulas e também levavam as mercadorias que os colonos necessitavam”. Nestes armazéns, haviam dois telefones ligados a uma central, em Sapiranga, que serviam para as comunicações comerciais e sociais. Esse fato mostra a importância histórica dos armazéns para as comunidades, que viviam isoladas dos grandes centros.

Hoje, mesmo sofrendo com a concorrência de grandes supermercados e de tantos outros empreendimentos do gênero, os armazéns sobrevivem, mantendo as características do passado.

Nesta reportagem, você vai conhecer detalhes sobre esses inusitados pontos de comércios, que permanecem com as portas abertas em Morro Reuter.

 

Armazém Klauck

Por fora, parece apenas uma casa antiga à beira da BR-116. A fachada simples, com paredes pintadas em branco e aberturas em azul claro. Nenhuma sinalização indica que, no prédio, funciona um dos mais históricos comércios de Morro Reuter. A única informação visível na fachada é o número “1920”, identificando o ano de construção da casa. Porém, é justamente assim que o armazém Klauck funciona há quase um século.

O proprietário, Léo Klauck, 78 anos, revela que não coloca placa na frente do armazém por questão de segurança. “Temos esse cuidado para não chamar atenção”, informa. A estratégia tem dado certo. Segundo Léo, até hoje o armazém não sofreu nenhum assalto. A falta de sinalização poderia atrapalhar na conquista de novos clientes que passam pela rodovia, mas o proprietário afirma que esse não é o objetivo do armazém. “Nós atendemos apenas o pessoal da comunidade”.

No interior do armazém, os móveis são da década de 50 e a geladeira dos anos 60. O piso é todo de madeira. As prateleiras abrigam uma grande variedade de produtos, especialmente de gêneros alimentícios e limpeza. Porém, as bebidas são os itens mais vendidos no armazém, especialmente cachaça e cerveja, que são consumidas lá mesmo. Um dos clientes mais fiéis é o agricultor Alfredo Gräeff, 72 anos. Todos os dias, ele vem ao armazém para tomar seu schnaps, como é chamada qualquer espécie de aguardente nas cidades de imigração alemã. Seu Alfredo repete esse ritual há 55 anos. “Isso aqui, é meu remedinho. Venho aqui sempre no final da manhã ou no final de tarde”, revela. Nos sábados e domingos, o “carteado” continua reunindo clientes tradicionais.

Antigamente, o armazém também era palco de bailes. O proprietário Léo Klauck conta que eram feitas cerca de quatro festas por ano, mas o salão foi demolido e, há pelo menos 20 anos, esse tipo de evento não acontece mais. O armazém Klauck fica no quilômetro 210 da BR-116, em Morro Reuter, bem em frente à capela de Picada São Paulo, que foi construída em 1911.

Antes de se tornar um armazém, a casa abrigou uma escola e uma lanchonete. Eram vendidos cucas, pães doces, cervejas, cachaças, gasosas e balas. A lanchonete era um ponto de encontro para os fiéis comerem depois da missa, já que era costume jejuar desde a meia noite do dia anterior até encerrada a celebração.

 

Armazém Kieling

Ao entrar no armazém Kieling, ou Kieling’s Haus, como está identificado na fachada, a impressão é a mesma. Os armários, que vão até o teto, estão repletos de mercadorias diversas, que vão desde pregos até feijão. O armazém conserva as lamparinas, que deram lugar à eletricidade.

Na parede, relógios antigos são verdadeiras relíquias da casa. A porta principal, em madeira, possui entalhes cuidadosamente desenhados, o que era tradição na Alemanha. Atrás do balcão, original da época de fundação, dona Helga Kieling, 88 anos, atende a freguesia. Há 68 anos trabalhando no armazém, ela esbanja simpatia e cordialidade. Nesse ritmo, o Kieling’s Haus segue com as portas abertas há 140 anos. “Já é a quarta geração dos Kieling que trabalha aqui”, informa Helga.

O armazém, construído em técnica enxaimel, mantém as mesmas características desde sua fundação. Hoje, porém, a rigidez imposta pelos órgãos de fiscalização, limita a comercialização de alguns produtos. Conforme Jorge Kieling, filho de Dona Helga, o armazém vendia remédios e até mesmo veneno, o que foi proibido. Alimentos como arroz, feijão, erva-mate, farinha ficavam em tambores e eram vendidos a granel. Por causa das novas exigências, ele conta que já pensou em transformar o armazém em um minimercado, mas desistiu da ideia. “Isso faz parte da história, é diferente”, diz.

As limitações, contudo, não impedem que a oferta de mercadorias continue abundante, só que agora os produtos são vendidos embalados, como exige a lei. Cerveja, cachaça e cigarro são os itens mais vendidos, reflexo da concentração de moradores que procuram o armazém para “jogar conversa fora” e arriscar no jogo de cartas. “Antes da noite, enche de gente”, garante Dona Helga.

O armazém fica bem ao lado da RS-873, na localidade de São José do Herval, em Morro Reuter. O local é ponto de encontro de viajantes e turistas. Segundo Jorge Kieling, o estabelecimento já foi visitado por alemães, ingleses e suíços, resultado da exposição no documentário Walachai, em que o armazém foi um dos locais de filmagens. 


Compartilhar

Classificar


Comentários

Comentar