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Os caminhos de São Chico

13 de novembro de 2012

Sulcos que cortam a vegetação de alguns morros nos arredores da cidade são vestígios de uma estrada milenar, que serviu aos habitantes de tempos longínquos dessa região.

Fotos: Internet

Sulcos que cortam a vegetação de alguns morros nos arredores da cidade são vestígios de uma estrada milenar, que serviu aos habitantes de tempos longínquos dessa região.

 

Do alto de algumas colinas, que ficam a nordeste do centro de São Francisco de Paula, é possível reparar em um profundo sulco esculpido entre a vegetação rasteira, que se embrenha na mata. As marcas medem cerca de dois metros de largura e um metro e meio de profundidade e chamam a atenção porque são contínuas, afastando a hipótese de ser o resultado de uma pequena erosão ou um acidente natural localizado na montanha.

Estes são os vestígios do primeiro caminho oficial que passou sobre o território gaúcho, a Estrada Real, cuja abertura foi ordenada pela Coroa Portuguesa no século XVIII. Nessa época, o Rio Grande do Sul era apenas território de passagem entre as ricas colônias espanholas do sul e o centro-norte brasileiro, onde se concentravam as principais atividades econômicas mantidas por Portugal no continente. 

“É a segunda estrada mais antiga da região sul, perde apenas para o caminho que ligava o porto de Laguna, a Santos e Rio de Janeiro”, garante Julio Jomertz, funcionário da Prefeitura de São Francisco de Paula e, em uma auto-definição, o ‘curioso-mor’ da cidade.

Movido exclusivamente pela vontade de conhecer o passado, Jomertz resolveu, 15 anos atrás, atestar se as tais marcas no solo de São Francisco de Paula - ou São Chico, como carinhosamente os gaúchos chamam esta cidade - eram vestígio de alguma antiga rota que passasse pela região.

Procurou bastante, até encontrar o diário de um viajante, que percorreu a Estrada Real em 1745, descrevendo os vilarejos e povoados por onde passava. Alguns locais por onde passou existem até hoje. É o caso do Rancho Queimado, comunidade no interior de São Chico.

Assim, Jomertz conseguiu mapear os 70 quilômetros de estrada que cruzam o Município. De São Francisco de Paula, o caminho seguia ao norte à Cambará, nos Campos de Cima da Serra e, dali, chegava até a cidade de Bom Jesus, desembocando no Registro de Santa Vitória - o principal posto de arrecadação de impostos do governo Imperial no Rio Grande do Sul.  Ao sul, ia em direção a Rolante e, depois, Santo Antônio da Patrulha, sede do distrito, o nordeste do Estado. 

 

Rota era usada por indígenas há quatro mil anos

No ano de 1830, com a construção do Caminho das Missões, um trajeto bem menos acidentado do que o dos Campos de Cima da Serra, a Estrada Real perdeu importância e passou a ser utilizada apenas localmente. 

Foi quando passou a se chamar Estrada da Serra Velha. Até hoje é usado pelos habitantes de São Chico para identificar uma trilha que dá acesso à zona colonial da cidade, possivelmente um caminho alternativo, que partia da antiga via principal.

Mas antes mesmo de ser oficialmente aberta pela Coroa Portuguesa, essa rota já era utilizada por indígenas, tropeiros e até pelos padres jesuítas que tentavam catequizar as tribos gaúchas. “Cheguei a encontrar na Estrada Real objetos que datam de 4 ou 5 mil anos”, comenta Jomertz, que entregou todo o acervo à Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Hoje, a estrada é objeto de estudo de pesquisadores.

Foi por este caminho que o temido bandeirante paulista Raposo Tavares entrou no território sulriograndense no século XVII para caçar índios, que seriam feitos escravos nas regiões produtoras de açúcar, no nordeste do País. O ataque de Raposo Tavares pôs fim ao primeiro ciclo das Missões no Rio Grande do Sul.

 

Hospedagem rural permite caminhar sobre sulcos

Um dos vestígios da antiga Estrada Real fica perto do Rancho Queimado, em um local público e de fácil acesso. Basta pegar a RS-020 em direção a Canela e andar aproximadamente 10 quilômetros. 

Também se pode caminhar sobre os sulcos centenários no Sítio Água da Rainha, a seis quilômetros do centro de São Chico. Embora uma parte do acesso seja de chão batido, a boa conservação da estrada permite que se chegue lá de carro, sem grandes obstáculos.

O sítio oferece hospedagem em cinco pequenas cabanas, equipadas com uma mini-cozinha, banheiro com chuveiro a gás, televisão e lareira no quarto. A maior delas pode abrigar até seis pessoas, porém, todas no mesmo cômodo, já que não há divisórias nas casas. As cabanas possuem varanda, de onde é possível apreciar a linda vista dos Campos de Cima da Serra.

Outro barato do local é comprar produtos coloniais, feitos pelos funcionários, para as refeições nos chalés. No café da manhã, a sugestão é a cesta com pães, manteiga, queijo serrano, geleias e mel - tudo produzido com o leite das vaquinhas holandesas, que circulam pelo sítio, ou fabricado a partir das frutas do pomar e das abelhas criadas ali mesmo.

Para almoço e jantar, a opção é o cardápio italiano, que inclui massas caseiras - raviólis com ricota e nozes, tórtei recheado com moranga, macarrão e diversos tipos de molhos.

Assim, o hóspede pode montar seu prato na própria cabana a partir dos ingredientes congelados. Até a sopa de capeleti sai rapidinho: no freezer do sítio estão armazenadas pequenas porções do caldo de galinha e, separadamente, a massa recheada. Os preços são atrativos: a refeição para duas pessoas sai por menos de 40 reais.

 

Cultura dos tropeiros continua presente

Em muitas outras propriedades de São Chico é possível ter contato com a história dos tropeiros e bandeirantes. 

Assar o churrasco na vala e chimarrear em volta do fogo de chão são algumas das práticas instituídas pelos tropeiros que ainda são cultivadas pelos habitantes da região. José Carlos Ramos de Almeida é hoje proprietário de um estabelecimento que convida os viajantes a vivenciarem um pouco dessa tradição dos gaúchos. 

A criação da Pousada e Restaurante Pomar Cisne Branco foi uma consequência do costume de reunir companheiros de trabalho para comer uma carne assada na brasa. No terreno do galpão, que hoje acolhe cerca de 15 mil turistas por ano, antes existia um pomar de maçãs - que dá nome ao estabelecimento. 

Pouco mais de uma década atrás, a rotina de trabalho na plantação de maçãs de Zé Carlos terminava invariavelmente em churrascada. Como não havia estrutura para assar a carne no espeto, o negócio era improvisar e fazer como os antepassados: abrir uma vala no chão, espetar a costela em galhos e deixar ela ali, assando durante seis, sete, oito horas, até que ficasse bem macia.

Muitos visitantes que voltavam dos cânions, nos Aparados da Serra, passavam pela propriedade e sentiam o cheiro convidativo da gordura queimando na brasa. E pediam um naquinho que fosse, só para experimentar.

Hoje Zé Carlos oferece regularmente o almoço de quarta-feira a domingo, que, além do costelão assado na vala, tem ainda um bufê com pratos quentes, saladas e sobremesas. O almoço é animado por uma dupla de acordeonista e violeiro, que interpretam um repertório variado: tocam desde música gaudéria até tangos, passando por milongas, chamamés, xotes e o vanerão.

 


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