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Rota radical no céu

04 de dezembro de 2012

No Ninho das Águias, em Nova Petrópolis, o turista pode curtir a paisagem, apreciar os voos de asa-delta e parapente e até se aventurar a saltar acompanhado de um instrutor.

Fotos: Internet

Estamos a 770 metros acima do nível do mar e o vento sopra forte no rosto. É uma manhã de sábado ensolarada e, lentamente, o Ninho das Águias começa a receber seus visitantes. Alguns são ocasionais, chegam em família ou com as namoradas para apreciar a vista de 270°, que inclui todo o Vale do Rio Caí e até o contorno de edifícios em Caxias de Sul, Farroupilha, Garibaldi e Bento Gonçalves. 

Quem vem pela primeira vez, impressiona-se ao ver a tranquilidade com que os veteranos se aproximam da borda do despenhadeiro. São os fundadores do clube de voo livre, que há mais de 30 anos sobem a montanha munidos de asas-delta e parapentes para realizar um antigo sonho humano: voar. 

“No começo, a gente voava trazendo o equipamento nas costas, morro acima, fazendo trilhas. Não tinha como chegar nem de jipe”, recorda um dos pioneiros do voo livre no Rio Grande do Sul, Prida Sander.

Hoje, o acesso é fácil: saindo do centro de Nova Petrópolis pela BR 116, rumo a Caxias do Sul, basta andar dez quilômetros no asfalto. Depois, mais cinco na estradinha de terra que sobe o morro, seguindo a placa indicativa: “Clube Ninho das Águias - pista de voo livre”. O percurso, mesmo sem calçamento, está em excelentes condições e pode ser percorrido em carro de passeio. 

A área no topo do morro é pública – foi adquirida pela prefeitura em 1988. A gestão do espaço é feita pelo clube de voo livre. Isso significa que qualquer um pode se sentar no gramado verde para curtir a paisagem ou olhar a curiosa atividade destes desportistas. No entanto, para voar só sendo sócio do clube – ou de algum outro do gênero no Rio Grande do Sul. “É um esporte de risco, ainda que a gente tente diminuí-lo ao máximo. A existência do clube garante que a Aeronáutica sabia que estamos aqui”, justifica Prida. 

Os praticantes de voo livre começam a chegar ao local por volta das 10h da manhã. Os adeptos do parapente (ou paraglider, em inglês) carregam uma grande mochila, com os apetrechos de vôo. 

Já os adeptos da asa-delta carregam uma bugiganga comprida e fininha – é como se fosse um casulo de uma borboleta medindo 50cmx5m – onde guardam o seu equipamento.

A asa-delta é mais antiga, começou a ser praticada no Rio Grande do Sul na década de 70, vinte anos antes da chegada do glider. As tribos rivalizam um pouco para convencer qual dos dois proporciona a experiência mais intensa. A diferença básica no voo é que na asa o piloto voa de barriga para baixo enquanto que na vela ficam sentados em uma cadeira. 

“Atualmente, as velocidades e distâncias percorridas por asa-delta e parapente estão se aproximando muito”, diz o piloto de asa Alexandre Portolan. 

No mais, é uma questão de praticidade. A asa demanda algum tempo para ser armada, pois possui estruturas de alumínio que a sustentam. Também pesa mais: algo próximo dos 40 quilos, contra uns 30 quilos do parapente. 

 

Cores vibrantes contrastam com o azul do céu

O início das decolagens depende da direção e da intensidade do vento. “Mas uma coisa é certa, se o turista quiser ver gente voando tem que estar aqui por volta das 13h, que é o horário clássico para saltar”, orienta o também fundador do Ninho e instrutor de voo, Flávio Pinheiro. 

Em pouco tempo, o azul do céu se enche de pontinhos coloridos – laranjas, verdes, vermelhos, amarelos-limão. Se a condição climática estiver favorável, é possível chegar até a base das nuvens, a uma altura de 2.500 metros. “Temos total controle da direção e da velocidade com que voamos”, tranquiliza outro instrutor que atua no Ninho, Joraci dos Santos.

Os praticantes de voo livre efetivamente guiam seus planadores. Há alguns controles manuais como acelerador e freio, mas a maior parte da estabilidade e direcionamento é feito com o corpo do piloto. Por isso, os equipamentos são regulados, de acordo com o peso  que irão carregar.

Muitos dos voadores ficam brincando de subir e descer por mais de uma hora, pegando carona nas ascendentes termais, que nada mais são do que bolhas de ar quente. Por serem mais leves que o ar frio, sobem e levam consigo os praticantes de voo livre. 

Alguns vão longe. As asas-delta, por exemplo, como são muito trabalhosas para montar, não decolam mais de uma vez e os seus condutores combinam pousos em cidades vizinhas - Canela, por exemplo. O que não impede que um praticante saia de Nova Petrópolis e desça em alguma praia do Litoral Norte.

Os adeptos do parapente também podem percorrer distâncias longas. A maioria acaba pousando em um terreno baixo que pertence ao clube porque a praticidade do equipamento permite que façam diversos saltos ao longo do dia. 

Uma alternativa para quem quer experimentar a sensação de saltar no infinito e ficar planando no céu é agendar um voo duplo com um instrutor habilitado. No Ninho das Águias atuam duas escolas, que proporcionam voo duplos e também organizam cursos de formação de pilotos. 

 

 

O mundo pelo lado do avesso

Primeiro é só um frio na barriga. Enquanto o instrutor ajusta meu equipamento, não consigo desgrudar os olhos da descida gramada por onde devemos correr até que os nossos pés deixem de tocar o chão. Tudo pronto, saímos em direção ao despenhadeiro ao comando de voz do meu piloto – eu dou dois ou três passos e, bem antes da borda do morro já não alcanço mais o solo. Ao contrário do que eu imaginava, não percebo nenhum solavanco, nenhuma resistência quando passamos, os dois, a sermos sustentados no ar pela comprida vela sobre nossas cabeças. Afastar-se da pista de pouso é uma sensação estranha – parece que estamos olhando o mundo pelo lado do avesso, é um ponto de vista interessante, o oposto. As pessoas, as árvores, os cachorros, tudo diminuiu de tamanho e, de repente, meu instrutor – Flavinho – aponta um conjunto urbano uns 60 quilômetros ao sul: “Ali é Novo Hamburgo, mais para cá, Dois Irmãos e antes, Morro Reuter”. Olhando para o outro lado, posso seguir com a vista as curvas sinuosas do Rio Caí e olhar com detalhes os paredões do Malakoff e a Pedra do Silêncio, famosos pontos de escalada em Nova Petrópolis. O piloto avisa que pegaremos carona em uma ascendente termal e segundos depois tenho a sensação de que alguém apertou o botão do elevador para o último andar – subimos rápido em espiral e tudo vai diminuindo de tamanho lá embaixo. “Obrigado meu deus!” se emociona Flavinho. Ouço os silvos do vento constantemente, mas dependendo do local para onde o  piloto nos leva é possível perceber a mudança na direção, na forma e na força das rajadas. É essa percepção que eles precisam depurar para controlar o equipamento – mas ninguém sai do chão sem um rádio pelo qual se comunicam com a base. Depois de uma hora suspensos no ar, Flavinho anuncia nossa descida. Antes de passar por esta experiência, eu tinha a impressão que sentiria uma sensação de grandiosidade, de poder. Mas logo depois de pousar, a única coisa que eu conseguia pensar era em como somos pequeninhos. 

Naira Hofmeister, repórter

 


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